6 diferenças entre o francês da França e do Québec

Existem diferenças entre o francês da França e do Québec? Saiba mais aqui! 

Francês é uma língua charmosa. A pronúncia, a leveza, a cadência da fala… são esses detalhes que a torna única e desperta o interesse em aprendê-la. De origem latina, o idioma surgiu na França e durante a história foi transmitido para outras partes do mundo. 

Um desses locais é o Québec. A província canadense foi um território ocupado primeiramente pelo país europeu e possui uma longa história de luta e resistência pelo direito de falar francês.  

Hoje em dia, as formas como o idioma é falado no Québec e na França são relativamente semelhantes. Contudo, naturalmente, existem algumas diferenças, sobretudo tratando-se da pronúncia. 

Assim como aconteceu com o português brasileiro e o espanhol falado na América Latina, o francês québécois desenvolveu características próprias como, por exemplo, um acento mais nasal em algumas palavras e expressões. 

Um exemplo são as palavras  “bien” e “matin”, que têm as sílabas “en” e “in”, respectivamente. Enquanto, na França, elas são  pronunciadas com o som “ã”,  no Québec fala-se com a sonoridade “ein”. Essa é apenas uma das diferenças entre o francês da França e do Québec

Abaixo, você conhecerá outras distinções e mais detalhes sobre a língua e sua história! Estamos ansiosos. Vamos lá? 

Quais são as diferenças entre o francês da França e do Québec?

Vale a pena pontuar que algumas das diferenças se destacam devido ao contexto histórico. Afinal, depois de 500 anos do início da colonização do território canadense, a língua francesa se transformou no Québec, agregando elementos do continente norte-americano e outras características linguísticas procedentes da sua história. 

Hoje em dia existem, por exemplo, gírias e até xingamentos próprios do Québec e você pode conhecer mais sobre a língua coloquial assistindo séries, escutando programas de humor ou até assistindo à televisão aberta. 

Abaixo, separamos seis diferenças importantes entre o francês falado na França e no Québec. Você vai notar que algumas delas estão diretamente relacionadas à construção de sociedade e peculiaridades da província canadense. Aproveitem! 

Seis diferenças entre francês da França e do Québec

1. Influência indígena

Idiomas são mutáveis, integram elementos regionais, geográficos e culturais. O Québec fica localizado na América do Norte e, por isso, alguns vocábulos possuem influência ameríndia. 

O próprio nome “Québec” é originário de “kebek” cujo significado é “onde o rio se estreita”, em referência ao Rio São Lourenço, mais estreito no local onde se estabeleceu a cidade de Québec. Já “Toronto” vem da  expressão mohawk “tkaronto”, que se traduz literalmente por “onde há árvores emergindo da água”. 

Outros exemplos de palavras com influência ameríndia: achigan (um gênero de peixe norte-americano); poulamon (tipo de bacalhau pequeno); maskinongé (tubarão almiscarado de água doce); carcajou (um mamífero do tamanho de um pequeno urso); caribou (rena); ouaouaron (maior sapo da América do Norte).

2. Vocabulário

Algumas palavras diferem nos dois lugares. A denominação “namorado”, por exemplo, é “chum” no Québec, enquanto na França é “petit-ami”. Já o termo “namorada” é “blonde” e “petite-amie”, respectivamente. Confira abaixo outros casos: 

  • No Québec, carro é “char”, enquanto na França é “voiture”
  • Limonada é “limonade” na província e “citronnade” no país europeu; 
  • O mesmo com a palavra sorvete: “crème glacée” no Québec e “glace” na França. 
  • Melancia é “melon d’eau” (melão d’água) no Québec e “pastèque” na França.
  • O esporte futebol, no Québec , é “soccer”. Já na França é “football”. 
  • Para jogar “soccer”, no Québec, você vai usar “espadrilles”. Na França, para jogar “football”, você vai usar “tennis”. Ambas palavras significam “tênis”.

3. Refeições do dia 

Na França, as três refeições do dia são petit-déjeuner, déjeuner e dîner. Já no Québec, as expressões mudam para déjeuner, dîner e souper. 

Onde as pessoas compram os alimentos também varia de país para país: enquanto um francês vai fazer as compras de mercado em um supermarché”, um québécois faz as compras na “épicerie”. Na França, “épicerie” é uma mercearia. 

4. Palavras Femininas 

O Québec é uma província acolhedora, com ótimas oportunidades profissionais, altos padrões de qualidade de vida e respeito à diversidade. Uma prova disto está no idioma: existe a versão feminina para designar profissões que eram consideradas, há anos, destinadas apenas aos homens, como professor, autor ou escritor. 

Assim, a província define-se como ‘pour la féminisation des professions’  fazendo o uso formal de palavras como “professeure” (feminino para professeur, professor) desde 1983. Em contrapartida, na França, o feminino da palavra “professora” (professeure) ainda não é totalmente aceito. 

Para contextualizar, na França, apenas em 2019 começou-se a usar o termo “autrice” para a palavra feminina “autora”. Antes disso, a variação era considerada um barbarismo da língua francesa pela Academia Francesa de Letras. No Québec, essa prática é adotada faz muitos anos.

5. Quem toma decisões sobre a língua 

No Québec, a instituição que decide sobre alterações e adaptações na língua falada é o l’Office québécois de la langue française. Já na França, tais deliberações cabem à Académie Française.

Complementando o item anterior, você deve ter notado que o Office é 

mais vanguardista que a Académie. Enquanto um propõe mudanças modernas e contemporâneas para a língua, outro ainda dá pequenos passos sobre discussões deste gênero. 

6. A luta contra o anglicismo

A história do Québec difere de outras colonizações realizadas pela França e possui uma narrativa diferenciada até dentro do Canadá. Fatos históricos, como o Tratado de Paris, de 1763, que passou a ocupação do território dos franceses para os ingleses, desencadearam na criação de uma forte identidade cultural e uma luta constante pela preservação do direito de falar francês. 

Por esta razão, existe uma resistência ao anglicismo que se nota na língua falada por lá. As palavras de origem inglesa são raríssimas e, praticamente todas, possuem versões em francês. 

A conhecida Lei 101 (La Loi 101) impõe que marcas comerciais, como, por exemplo, KFC e Starbucks estabeleçam seus estabelecimentos com fachadas e menus em francês.

Na França, bem como no Brasil, é comum empregar palavras em inglês que poderiam ser traduzidas e/ou adaptadas para o idioma local. No Québec isso é bem diferente! 

Na França se fala: chat, e-mail, smartphone – palavras do idioma inglês. Em contrapartida, no Québec se diz, respectivamente:  clavardage, courriel, téléphone intelligent.

Podemos entender o raciocínio para criar essas novas palavras no idioma francês com certa facilidade. A palavra “e-mail” originou-se deelectronic mail”. Portanto, adaptando para o francês, pensou-se da mesma forma, e o que seria “courrier électronique” se tornou “courriel”.

Vejamos a palavra “smartphone”, frequentemente utilizada entre falantes de português no Brasil e de francês na França. Traduzindo, teríamos otelefone inteligente”, mas ninguém utiliza esses termos, o usual é dizer “smartphone”. No Québec, entretanto, um smartphone é chamado de “téléphone intelligent”.

O termo “chat”, em inglês, também passou por esse processo e foi “quebecisado”, criando a palavra “clavardage”, que vem das palavras “clavier (teclado, em francês québécois) e “bavardage” (papo, em francês québécois). Também desse raciocínio surgiu o verbo clavarder”!

O Québec se tornou, nas últimas décadas, o maior defensor do idioma francês no mundo, enquanto os franceses e a Académie Française aceitam tranquilamente a anglicização do idioma no dia-a-dia.

Até os canais midiáticos, como TVs e rádios públicas da França, estão usando o inglês para se definir, como a Télévision de France que chama o seu canal de notícias de My TF1 News (Meu TF1 Nóticias). Pouquíssimas pessoas no país se incomodam com a questão da inserção excessiva de termos em inglês em detrimento da possibilidade de traduzi-los para o francês, o que seria diferente no Québec.

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Essas seis diferenças entre francês da França e do Québec são bem interessantes, não é mesmo? 

T’as-tu compris ? Aliás, essa é outra característica marcante da língua francesa falada no Québec: a partícula tu aplicada às perguntas – falaremos mais sobre essa partícula em outro post. 

Para finalizar, uma particularidade bônus: as saudações são utilizadas de maneira diferente em cada um dos países. Na França, bom dia é “bonjour”, enquanto no Québec utiliza-se “bon matin” – um uso inexistente no país europeu. Inclusive, enquanto na França usamos mais “bonjour”, no Québec dizemos muito mais frequentemente “salut”.

Gostou de aprender mais sobre essas diferenças? Descobrir mais sobre os países é uma boa forma de usar o tempo livre, ainda mais em momentos de isolamento social. 

O que acha de começar agora mesmo a falar francês québécois? Uma boa forma de começar é fazendo o teste e compreendendo melhor sobre qual o seu nível de fluência! Faça agora, mesmo que seja apenas por curiosidade 😉 

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